O cinema inerente de Paul Thomas Anderson

Imagem: Divulgação.
SEM SPOILERS
Por Alysson Oliveira
Paul Thomas Anderson é o único cineasta que ganhou prêmio de direção nos três principais festivais de cinema do mundo: Cannes (Embriagado de Amor, 2002), Berlim (Sangue Negro, 2008) e Veneza (O Mestre, 2012). Agora, soma-se a essa trinca, o Oscar de Melhor Direção, por Uma Batalha Após A Outra, além das categorias Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Filme.
Os prêmios são bem-vindos, mas não que ele precisasse deles para provar que é um dos maiores cineastas da atualidade. Sua carreira em longas começou há exatos 30 anos, com Jogada de Risco, um drama independente que já ensaiava suas marcas-registradas como diretor – seja no seu interesse por personagens à margem ou o uso da música, por exemplo. Mas, mas do que isso, em sua filmografia, Anderson é um cronista da história do seu país sob a estrutura de sentimento da pós-modernidade.
Discípulo assumido de Robert Altman, o cineasta se interessa por como a vida interior das personagens refletem a história da sociedade estadunidense. Boogie Nights – Prazer Sem Limites, por exemplo, de 1997, é um filme sobre a ascensão do neoliberalismo, nos anos de 1970 e sua sedimentação na década seguinte. A indústria pornográfica, que está ao centro do longa, é uma metáfora para os EUA.

Cena de Boogie Nights (1997). magem: Divulgação.
O longa é dividido em duas partes: década de 1970 e década de 1980. Na primeira, quando os filmes explícitos são uma espécie de arte, exibidos nas salas de cinema, vivendo a Era de Ouro do Pornô. Isso é um reflexo da euforia e utopias dos anos de 1960, da revolução sexual e da liberdade. A virada para os anos de 1980 marca uma profunda mudança com a ascensão do videocassete. O público não precisavam mais ir ao cinema para ver filmes adultos. Estes, por sua vez, eram feitos em vídeo, não em película, e como quem assistia poderia acelerar as cenas apertando um botão do controle remoto, não havia mais a possibilidade de haver uma narrativa, tudo se resumia ao explícito. O videocassete simboliza aqui o neoliberalismo – e, em certa medida, o neoconservadorismo.

Cena de Vício Inerente (2014).Imagem: Divulgação.
Vício Inerente (2014), também baseado em Thomas Pynchon, como Uma Batalha Após a Outra, é um neonoir banhado em neon e pós-modernidade (vinda especialmente da literatura de Pynchon) sobre como o capitalismo é capaz de cooptar tudo e transformar em mercadoria – até mesmo a contracultura e as utopias. O “vício inerente” do título está exatamente nessa capacidade do capital de fagocitar a tudo, transformando em lucro e mais-valia. Novamente, um filme sobre as decepções diante de um sistema que parece não apresentar saída.

Cena de Sangue Negro (2007). Imagem: Divulgação.
Sangue Negro (2007) vai ainda mais longe. O tema aqui é o capital fóssil e como o ethos dos EUA está intimamente ligado a isso, além da religião. Partindo do romance Oil!, de Upton Sinclair, publicado nos anos de 1920, Anderson faz um retrato da formação do seu país por meio do personagem Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis), que começa a acumular capital buscando ouro e prata, mas irá enriquecer quando, finalmente, encontrar petróleo de forma pouco lícita. Seu maior rival é o jovem pastor Eli (Paul Dano), mais interessado em dinheiro do que na espiritualidade.
Os dois lados, com os mesmos objetivos da acumulação de riqueza, vendem possibilidades de futuro distintas, mas que, no fundo, disputam da mesma maneira dinheiro e poder. A visão de Plainview, ao final, pode prevalecer, mas o preço é alto, e resulta na ascensão financeira, e a decadência moral. Paul Thomas Anderson, como ninguém, soube como transformar essa dinâmica em forma cinematográfica – em especial nesse filme.

Cena de “Uma batalha após a Outra” (2025).Imagem: Divulgação.
E eis que em 2025, ele vem com outra camada nessa investigação sobre os EUA. Uma Batalha Após A Outra parte do romance Vineland (1980), e coloca novamente as questões de Vício Inerente, mas de maneira ainda mais contundente: o capitalismo é capaz de cooptar a tentativa de revolução? A resposta ainda está em disputa – mas, spoiler, deve ser “sim”- porém, o longa joga com isso de forma sagaz. As novas gerações recebem o bastão das anteriores, e buscam outras maneiras de implodir o sistema que, a essa altura, está escancarado. Premiar um filme como esses, num momento como agora, passa, sem dúvida, uma mensagem sobre o estado do mundo. Mas qual? O futuro, como sempre, está em jogo – ou sob escombros.
Onde ver PTA:
Uma Batalha Após a Outra (2025): HBO Max.
Licorice Pizza (2021): Mubi
Trama Fantasma (2017): Mubi
Vício Inerente (2014): HBO Max.
O Mestre (2012): Amazon Prime Video
Sangue Negro (2007): Apple TV
Embriagado de Amor (2002): Sony One
Magnólia (1999): HBO Max.
Boogie Nights – Prazer Sem Limites (1997): Apple TV
Jogada de Risco (1996): Google Play/Apple TV
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Alysson Oliveira é jornalista e crítico de cinema no site Cineweb, membro da ABRACCINE – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, e escreve sobre livros na revista Carta Capital. Tem mestrado e doutorado em Letras, pela FFLCH-USP, nos quais estudou Cormac McCarthy e Ursula K. LeGuin, respectivamente. Realiza pesquisa de pós-doutorado, na mesma instituição, sobre a relação entre a literatura contemporânea dos EUA e o neoliberalismo, em autores como Don DeLillo, Rachel Kushner e Ben Lerner, sob orientação de Maria Elisa Cevasco.
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